Descasca como banana
Recém ingresso na vida escolar, nos velhos e sempre atualizado domínio das tias, fui incumbido, assim como todos os demais coleguinhas, de voltar na semana seguinte com uma característica peculiar, marcante e significativa, do meu pai.
A tia, como sabemos, é aquela figura meiga, gentil e carinhosa que nos afaga nos primórdios da vida.
Quando deixamos o convívio familiar – nossa primeira guarida – e nos voltamos para o mundo que nos espera cheio de surpresas e de “nãos”, é ela quem, depois de nossas mães, troca-nos as fraudas, acaricia-nos as faces, compreende nossas traquinagens.
– Não esqueçam da tarefa, certo meninos? disse a tia ao final da aula.
O fim de semana foi um sofrimento. Não saberia como falar uma característica marcante do meu pai. A priori, não sabia sequer o que significava CARACTERÍSTICA.
No domingo, anterior ao resultado da “pesquisa”, não dormi. Mamãe não entendeu o porquê da minha rejeição em ir ao colégio naquele dia. Inventei desculpas, dores de cabeça, indisposição... Nada. Meus pais de forma alguma deixariam, minha mãe principalmente, que eu perdesse um dia de aula.
Nessa época, meu pai ainda trabalhava e participava muito da minha educação, dentro das suas limitações cognitivas. Achava importante ir deixar-me no colégio e me acompanhava mesmo!
– Vá logo ao Colégio! – Bradava mamãe. – Onde já se viu perder aula por causa de uma dorzinha de cabeça!
– Está doendo muito! replicava com aparência doentia.
– Não importa! Tome um remédio e vá!
Depois de muitos conselhos e cascudos, lá estava eu com a bolsinha de aluno aplicado, a merendeira com suco de laranja, alguns biscoitos, lencinho para não voltar sujo e um tremendo problemão para resolver: uma CARACTERÍSTICA do meu pai.
A tia chegou um pouco após o toque. Sentados, observávamos seus trejeitos explicando uma coisa e outra. Muito jovem, parecia uma das amiguinhas dos meus primos mais velhos que eles levavam lá para a minha pequenina casinha para brincar, sempre aproveitando as raras e demoradas saídas da minha mãe. Não entendia muito bem o propósito das brincadeiras deles, mas hoje sei muito bem e até gosto dessas safadezazinhas de criança. Brincavam de “esconde-esconde”, “pega-pega”, “cai no poço”, “doutor e doente...” Brincadeirinhas típicas de criança mesmo, sabe? Pena que os jovens de hoje perderam a “ingenuidade”.
A cada pausa imaginava que o próximo assunto seria a apresentação da tarefa de casa. Suspirava. Outro assunto. Novas constipações, novo calafrio. Finalmente chegou o momento.
– Crianças! Agora vamos conhecer um pouco de cada um dos pais de vocês. Era o fim.
Característica...Característica... Essa palavra não saía da minha mente.
– Boa Morte? – Fale-me uma característica do seu pai.
– Meu pai é forte, alto, inteligente...
Esqueci de falar que o Boa Morte era o mais prolixo de todos nós. Apesar de tudo, à medida que as respostas surgiam, percebi que característica é uma característica, dá para entender, não dá? Muito bem. Agora que eu já sabia o que era uma característica de alguém, restava-me um outro problema ainda maior: que característica falaria do meu pai.
Os números seguiam e minha hora não tardaria. A dor de cabeça era verdadeira agora. De repente:
– Thiago!
– Sim, tia!
– Dê-me uma característica do seu pai.
Com a ingenuidade que somente as crianças possuem, falei a única lembrança que me veio à mente. Em alto, bom tom e cheio de orgulho, respondi:
– Professora, a piroca do meu pai descasca como banana!
A professora olhou-me com espanto, não sabendo se me punia ou se me elogiava, tamanha a minha originalidade. Porém, após instantes de meditação, saiu a sentença:
– Vá embora e diga aos seus pais para comparecerem ao Colégio urgentemente. Sem eles você não entra.
Fiquei transtornado. Não poderia ser punido depois de tanto sofrimento. Ela jamais imaginaria o quanto penei em busca de resolver o trabalho. Perdi uma noite de sono. Deixei de me alimentar. Briguei comigo mesmo, tudo para resolver o problema. Não era justo.
No dia seguinte meu pai compareceu ao Colégio. Queria saber o motivo da suspensão.
A tia não quis expressar-se com os termos usados por mim. Começou a fazer rodeios, dizer asneiras – estava fora de si, confusa. Restringiu-se a dizer que eu dissera palavrões.
Meu pai tentou repreender-me, quando, ingenuamente, falei:
– Papai, eu não fiz nada! Eu apenas disse para a tia que a piroca do senhor “descascava como banana”.
O sorriso do meu pai foi tamanho e tão espontâneo que a professora não soube o que dizer e retirou-se, atrapalhada.
Em casa, meu pai, todo orgulhoso, contou a proeza para minha mãe que mais uma vez brindou-me com um tremendo cascudo.
– Esse menino não toma jeito, meu Deus!
Fortaleza – Ce, em algum dia de 1998.
Nijair Araújo
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