O descaso

Era mais um monótono e angustiante dia de domingo – daqueles que a gente luta contra o tempo esperando o novo dia de trabalho; mais precisamente, estávamos em primeiro de março do ano de mil novecentos e noventa e oito.

Ao acordar, percebo minha esposa ao telefone conversando em divagações sobre o falecimento de uma jovem. Ela perguntava:

– Vinte e dois anos? Tinha duas filhas? Morreu de apendicite!?

Ao passo que ouvia os questionamentos, percebi a desolação no tom melancólico das palavras proferidas por ela.

– Morrer de apendicite! Que descaso! Não se concebe alguém morrer por uma enfermidade desta natureza numa época de tão avançada medicina... Somente através de muita negligência, por um ato relapso, alguém poderia findar-se dessa forma!

Ao entardecer, absorto em minhas leituras diárias, flagro, casualmente, uma senhora angariando alguns reais para efetuar o funeral da jovem que se nos deixara. Não sei se é justo colocar que era seu destino. Será que não foi um homicídio culposo que a levou assim, repentinamente? Será que o notório e egrégio juramento de Hipócrates não foi substituído por alguém e, consciente ou fortuitamente, lido como juramento de “Hipócritas”?

Médico: profissão nobre. Pena existirem alguns esculápios que se julgam servidores, mas nas suas funções labutam com dois pesos e três medidas. Aqui cairiam bem alguns reais como grandeza de medida. Quem sabe um bom plano de saúde, que custa os olhos da cara, teria resolvido o problema. Quem sabe! Alguns reais. Dinheiro. São tão poucos os ricos. Tanta gente morrendo à míngua. Quanta fartura e bonança para alguns poucos. Quanta fome e miséria para o povo!

Horas depois, pouco após a hora da Ave Maria, fomos à casa da minha sogra. Ela não estava. Saíra para velar a defunta. Dirigimo-nos até lá.

Procuramos a casa da jovem falecida por alguns minutos. O local era um tanto difícil de se encontrar. Passamos por um boteco onde algumas pessoas bebiam e até pensávamos em voltar por não acreditarmos que, naquele local ou nas adjacências, pudesse haver algum velório tamanha a libação e quão alto o som que advinha de uma residência das imediações.

Apesar de tudo, de todo paradoxo, resolvemos perguntar para um casal se saberiam informar se havia morrido alguém nas proximidades. O rapaz indicou-nos um beco estreito, mal saneado, desconfortável, de aspecto lúgubre. Entramos na direção indicada: uma viela que mais parecia um cortiço como aqueles enfocados por escritores brasileiros, gente letrada que sabe colocar os pingos nos “ïs”, descrevendo com apuro os locais e as desigualdades sociais brasileiras.

Entramos. Fizemos algumas manobras, ora à direita, ora à esquerda, até que encontramos pessoas com semblante plúmbeo como os descritos pelo bom baiano Jorge Amado no livro Mar Morto – semblante que lembra a morte. Aqui não é tão doce morrer na terra.

Logo ao chegar, observo um jovem sentado com uma criança ao colo. Aproximo-me e percebo tratar-se de um amigo de infância que há muito não via. Perguntei se conhecia a jovem e fui surpreendido com a resposta:

– Era minha esposa.

– E esta criança?

– É minha filha... Foi duro arranjar as coisas com dois vales transportes no bolso... Não tinha era nenhum quando ligaram do hospital dizendo que eu fosse lá. Eles não quiseram me dizer por telefone. Até estranhei. Já que se recusaram receber minha esposa, por que tanto interesse?

– Você está trabalhando?

– Não. “Tô” parado. Eu vendia suco de laranja, mas o cara quebrou e eu saí. Se eu tivesse dinheiro dava para começar um negócio para mim. Com cinqüenta reais eu começaria a vender laranja no mesmo local que eu vendia os sucos. Se eu tivesse, mas não tenho. Dei um jeito de arranjar dinheiro para a funerária “vim” levar o corpo.

Prossegui, enquanto recebia as condolências de algumas senhoras que chegavam:

– A assistente social providenciou o caixão e eu levei para o cemitério porque não tinha dinheiro para trazer para casa. Eles cobraram sessenta reais e eu não tinha nada. Achei melhor levar direto para o cemitério.

– E como você a trouxe para casa?

– A tia dela pediu dinheiro de porta em porta e conseguiu juntar.

Nesse instante, recordo da senhora que deandulava de casa em casa... Não sei se minha esposa contribuiu. Estamos tão calejados com esse tipo de pedinte! Tantos se aproveitam da boa vontade das pessoas para uma ação insidiosa, passando-se por enfermo... Quantos já não foram mortos clandestinamente!

– Ela estava doente desde de muito tempo? pergunto, após as questões levantadas em segredo.

– Não. Sentiu umas dores e eu a levei ao médico. Ela não foi atendida e nos mandaram ir embora.

– Você sabe o nome do médico?

– Ela nem foi atendida... Mandaram voltar, trazer de volta para casa. Eu a levei ao hospital por três vezes. Não atenderam.

– Procure seus direitos. Denuncie para que isso não ocorra com outras pessoas.

Nesse momento, uma senhora que ouvia nossa conversa, interveio dizendo que também conhecia um caso dessa natureza. Uma outra, ratificou o descaso para com os desprovidos de riquezas e contemplou-nos com mais um infeliz que caíra nas mãos de um assecla de “Hipócrates”.

É lícito e convém lembrar para que não se dilua em nossa mente que, durante o período em que estivera doente, enferma, a nossa pequena menina, que trabalhava numa sorveteria, não se abstivera do trabalho e, por vezes, fora flagrada pela patroa sentada e mostrando sinais irrefutáveis de dor. Porém, temendo perder a única fonte de renda que atualmente havia em casa, submetia-se ao sofrimento de trabalhar nessas condições.

Entrei para ver a jovem que nos deixara e observei que em sua intenção era tirado um terço. Fui observar-lhe as feições. Senti a perda de um ser tão jovem que faleceu na esperança de viver dias melhores que não vieram.

O caixão: tinha algo de referência em se tratando das circunstâncias. Não se teria a menor dúvida que não se destinava, quando da sua confecção, à falecida. Era enorme e os pezinhos de mulher mal crescida não preenchiam quase nada dentro do esquife. Dava a impressão que estava faltando mais alguém para completar o terreno. Talvez e certamente não se quisesse mais constrição para aquela família, mas, sem dúvida, dentro daquele espaço vazio, um pouco da fé e da crença na bondade humana também partiriam com a jovem, deixando um pouco dessa frustração junto a todos que por ali passaram e tiveram conhecimento do episódio.

Durante o terço, um dos mistérios foi dirigido por minha esposa que na terceira Ave Maria não se conteve e pôs-se a chorar talvez lembrando da nossa filha e imaginando a possibilidade de perdê-la e deixá-la em circunstâncias similares... Mas ela tem plano de saúde – pensei. Certamente quem é mãe saberá entender melhor o que se passou pela cabeça da minha esposa e o fato gerador de tamanha tristeza.

Rezado o terço, voltamos e nos pusemos a questionar os porquês da situação...

– E se fizéssemos nossa parte?

– ...

Fortaleza – Ce, 1º de março de 1998.

Nijair Araújo

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