O tempo
São engraçados os acontecimentos da vida, não!
Planejamos metas. Em função delas norteamos nossas ações. Alcançamos aquilo que consideramos felicidade plena e, a partir da obtenção dessa realidade aparente de uma felicidade imutável, acomodamo-nos.
Nesse instante, quando nos sentimos completos, age o imponderável tempo... Ele, de um modo romântico ou esdrúxulo, inicia um processo de abertura de horizontes outros, diferentes daqueles que nos apoiávamos outrora. De repente, quer queiramos ou não, estamos inseridos numa realidade que parece não ser aquela tão sonhada... Magicamente, numa sucessão de fatos inusitados, repensamos nossos valores, nossos ideais de vida e nossos conceitos, alguns bem arraigados, de felicidade e de amor.
Após o burilamento interior, aceitamos o novo e começamos a trabalhar em função dele. Sentimo-nos empolgados, felizes, achamos até que estávamos cegos, perdidos num conjunto de sofismas ingênuos. Mudando nosso interior, revelamos aos que nos rodeiam o surgimento de uma nova pessoa dentro de nós. A felicidade estampada no rosto causa inveja aos que ainda se encontram alijados dos mimos de um novo amor, de uma nova experiência de vida e de uma intensa doação recíproca. Parecemos pessoas estranhas diante dos outros. É. O amor faz isso!
O tempo, porém, é imponderável sempre. O novo, ao passo que o tempo não pára, perde a pujança do primeiro contato, da primeira experiência, do primeiro sim e, após os conflitos inerentes ao homem de temer o novo, depois que nos sentimos fortes para lutar em busca desses novos horizontes, esmorecemos. As chamas de uma combustão completa – labaredas ardentes – reduzem-se a brasas, a cinzas.
Quando o outro se imagina aceito. Quando o outro também começa a repensar seus valores e a viver em função da nova realidade que se apresenta, percebe que está sozinho... Percebe que não tem mais o contato, a afeição e a cumplicidade – ferramentas básicas e imprescindíveis num relacionamento a dois. Desesperado, o outro tenta descobrir o erro, mas não existe erro. É o tempo – mola mestra das realizações e das frustrações humanas. O que fazer agora que ficamos sozinhos!
Talvez o tempo responda... Enquanto isso, o outro ainda luta, embora sozinho, buscando uma nova forma de abordar o desconhecido ser que se tornou o novo.
E o relógio não pára de caminhar...
Nijair Araújo nijair@uol.com.br
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