O Silêncio de Pascal

“O silêncio desses espaços infinitos me apavora”.

Os pensamentos estraçalhados de Pascal são a crise de uma consciência excepcional no limiar de uma nova era.

O místico Pascal contempla o céu estrelado numa vã espera de vozes.

O céu calou-se.

Estamos sós no infinito.

Deus nos abandonou.

“Daquela estrela à outra a noite se encarcera em turbinosa vazia desmesura daquela solidão de estrela àquela solidão de estrela” (Leopardi via Haroldo de Campos)*

Nenhum ufo **

No close contact of the third kind ***

A solidão “cósmica” de Pascal é o pendant do vazio de sua classe social cuja hegemonia está para terminar os germes da revolução francesa que vai derrubar a nobreza e colocar a burguesia no poder.

Já estão no ar.

Pascal ouve nos céus o tremendo silêncio de uma classe que já disse tudo que tinha a dizer pela boca da história.

(Paulo Leminski, in Folha de São Paulo, 27-07-1985, Folha Ilustrada).

* citação de versos do poeta italiano Leopardi através de uma recriação do poeta concretista brasileiro Haroldo de Campos
** UFO – “unknown flying object”, ou seja, OVNI, “objeto voador não identificado”.
*** Quer dizer: nenhum contato imediato de terceiro grau.

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